Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Em Dezembro



Ana Salomé
David Teles Pereira
Déborah Vukušic
Diogo Vaz Pinto
Elena Medel
Jesús Jiménez Domínguez
José Carlos Barros
Luís Filipe Parrado
Luís Pedroso
Maria Sousa
Miguel Martins
Nuno Brito
Rui Caeiro
Rui Miguel Ribeiro

Criatura nº4, Dezembro de 2009
Núcleo Autónomo Calíope

Mandala

O vento e eu, delgados os dois,
rivalizamos em achados e desaparições:
enquanto ele desordena a sintaxe alada do teu cabelo
e arrisca uma frase difícil depois de penteá-lo,
também eu sopro em ti para soltar do teu olho
um grão de areia ou a promessa de um deserto.
E nessa sílaba de praia que voa
está o início de todos os caminhos,
a caligrafia insone das gaivotas,
o teu gesto maquinal ao agitar a toalha
como se quisesses desprender
o significado do próprio objecto,
e está o fim do Verão com o que restou
de todas as carícias e todos os naufrágios.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en Negro

A solidão concorrida

Assomando ao rio como faria um médico legista
ante seu próprio cadáver estendido na mesa,
pensei: Todo o poema é um rio que passa,
água escura e distinta que não se deixa apressar.
O nadador que se adentra na corrente
ingressa na seita dos espelhos, rompe
a claridade do poema deixando um espaço,
o molde horizontal de um anjo despercebido.
Então penso em Jeff Bucley perdido
na digestão do Mississippi, penso em Li-Po
abraçado ao diadema da água, em Paul Celan
a andar pelo fundo do Sena, a entrar
na catedral dos dias azuis. Eles foram
o poema e eles a pedra, o ponto final.
E enquanto a música baixa deixando-me
um anjo entre os lábios, sem som digo-me:
Sou à vez o afogado e meu único médico-legista.
Afundo os braços na água deste poema.
Busco para ti a palavra peixe com as mãos
mas a espinha de um fantasma é tudo o que pesco.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en Negro

Testamento de Jeff Buckley

Um nadador divide a solidão em dois:
a primeira é da água;
a segunda, do céu.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en Negro

Tetro (2009)


6/10

[EM SÃO JOÃO, NA MARÉ ALTA]


Em São João, na maré alta
Crianças puxam barcos a cordel.
Outras guardam em pequenos baldes
Estrelas, anémonas, conchas
Que poderiam ter trazido em peregrinação.
Há túneis com água,
Castelos de brincar
Onde a Sara inventa — por breves instantes —
A glória do seu reino e do seu nome.

Na maré baixa
Migram os rochedos,
As fortalezas dão lugar a pequenos lagos
De algas e canções.
As crianças disputam o pequeno areal
Enquanto os pais, de olhar mais distraído nos veleiros,
Sonham Dezembro disposto noutras fortalezas,
Num outro ângulo de visão.

A praia, o pequeno areal,
O mar em frente
Estende ou aproxima os pequenos sonhos
Baralhados num jogo de brincar.

- Rui Pedro Gonçalves

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

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Sub-Pop

We’re plastic
but we still have fun

Lady Gaga
Desliga o motor, deixa só os faróis.
Quietos, à beira de um descampado
respiramos pela boca debaixo
de um silêncio de chuva e vê-se
o escuro afrouxar alguns nós, sombras
encarnando lentamente
como numa pintura. Corvos, parecia,
debicando uns frutos caídos
que não conhecemos nem vimos antes.

O vinho verde, deu para tudo, o ritmo
fez o que quis de nós. Agora
a fúria que nos divertiu corrige-se
com a manhã até uma pequena náusea
de boca entreaberta e seca. Divide-se
entre todos uma difusa sensação
da noite, do fim, e a luz molhada
dos últimos candeeiros sai vencida
por um tumulto natural.
Assobia-se nas ruas, há entre elas
um vento retido que leva o eco
de canções já sem ninguém,
arrastos comovidos com quase nada.

Dos domingos, quando ainda damos
por eles, fica só um registo junto
à pulsação. O sol levanta-se a custo
e larga alguns em casa, de resto
não quer saber que porra fizemos
na sua ausência.

Largam-me em casa e ponho-me
à janela a comer cereais, e vejo-os dali,
abrigados sob um telheiro,
uns pássaros em filinha e trrrcht, um
e outro logo, fodidos de chumbo –
o impacto caramba, que delícia!
Mesmo por mal, uns putos num quinto
andar com uma pressão de ar, o riso
e os disparos, cá em baixo aquele
estrago todo. Pequenos gestos assim,
destrutivos, abrindo a maldade
como uma flor, babando-se de luz
e lambendo os lábios. Lembra-me

que o que morre
nasce para uma certa beleza.
Penso calçar-me, meter o casaco
sobre o pijama, ir à varanda e fazer
umas chamadas, fundar um partido,
ver no calendário se ainda demora
o inverno e planear a invasão
duma Polónia, a ocupação dalguma
França, mas pelas duas da tarde
caminho aos ziguezagues até à cama
e adormeço simplesmente.

Últimos desejos

Quero voar como os anjos
quero lavar os dentes com triflúor
quero o Belinho sem o Oliveira
quero cornear o duque de Kent

quero 250 de Platão bem passados
quero a destreza do okapi
quero ir ao Douro às vindimas
quero pagar com letrasset

quero vestir de linho (e do Veiga)
quero ser primeiro no Mundial
quero pudim francês com caramelo
quero ler um cabinda em verso branco

quero uma sequóia para o quarto
quero voar de Spitfire
quero esmurrar o Marcel Cerdan
quero a Maja Desnuda

quero-te de bicicleta
quero-te outra vez de bicicleta sobre as folhas
quero-te ouvir chegar de bicicleta
quero o som macio que fazia na mata a tua
bicicleta.

- Fernando Assis Pacheco